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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Escultura de Lampião em argila.

"Dizem que após terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo, ao terminar de esculpi-la bateu com o cinzel nos joelhos e disse: "Agora Fale!" (em italiano, “Parla!”)".

Essa frase bem que também poderia ser dita pelo nosso amigo/escultor Fernandes Rodrigues que através do barro deu "vida" ao "Capitão" Virgolino Ferreira da Silva "Lampião".

A perfeição da escultura é tamanha que só falta mesmo é falar.

Fala Capitão!

Dê ao menos uma palavra para àqueles que pesquisam e estudam sua vida e suas façanhas.

Meus parabéns ao artista Fernandes Rodrigues pela qualidade da obra.


Geraldo Antônio de Souza Júnior


domingo, 15 de outubro de 2017

HISTÓRIAS DO CANGAÇO

Para tirar a raça.


Por: Leonardo Motta.

Sempre que o coração cruel de Lampião se abrandava num gesto compassivo, Sabino Gomes, seu lugar-tenente, resmungava, contrariado. Quando foi, por exemplo, da ocupação da cidade cearense Limoeiro, Lampião rendeu-se às súplicas do Vigário local para não saquear as casas de comércio. Sabino, visivelmente irritado, mandava o Padre rezar e cuidar da sua igreja, não se metendo em coisas que não são da conta de quem veste batina.

Sabino foi morto pelo próprio Lampião, que sempre o temeu, se arreceou do seu crescente prestígio no bando e se tornou cobiçado dos cinquenta e tantos pacotes que Sabino trazia sob a cartucheira.

– Antes que ele me queira jantar, eu o almoço! decidiu Lampião, suspeitoso de que Sabino, mais hoje, mais amanhã, o abatesse com um tiro, para se apoderar da centena de contos de réis que também ele, Virgolino, acarinhava de encontro à cinta.

Uma das preocupações de Sabino na vida de crimes a que se entregou era vingar a morte dum seu irmão, o Gregório, rapaz pacato e benquisto, eliminado numa emboscada pelo Zé Favela. Nunca se pôde saber a causa desse assassínio.

Um dia, casualmente chegando a uma fazenda, Sabino e seus cabras encontraram o Zé Favela desarmado. Reconhecê-lo e arrastá-lo para o terreiro, a fim de ser sangrado, foram coisas simultâneas. Antes, porém, que a vingança se consumasse, a dona da casa, com um crucifixo à mão, implorou do sicário, aos gritos:

– Seu Sabino, lhe peço por esta image: não mate o home! É o premêro pedido que lhe faço e se alembre que o Sr. nunca chegou nesta casa que não tivesse comidoria e arrancho e a gente não lhe botasse no piso da poliça! Me faça isso, seu Sabino, não mate o home!

Sabino quedou um instante e falou pro Zé Favela:

– Cabra, tu vai me dizer uma coisa: por que foi que tu matou meu irmão?

Zé Favela, sobranceiro como um nobre condenado, que altivamente aguardasse a morte, redarguiu, sem pestanejar:

– Seu Sabino, eu matei seu irmão, enganado.

– Enganado como, cabra mentiroso?

– Cabra mentiroso, não seu Sabino! Eu matei seu irmão enganado! Matei ele, enganado, porque eu ia matar era o senhor!

A confusão era verdadeira, mas brutal! Os companheiros de Sabino sentiram que o Favela não seria poupado. Mas o interrogatório prosseguia:

– Me matar por quê, cabra, se eu nunca te fiz mal?

– Eu ia matar o Sr., pra ganhar 50$000 do Joaquim Manduca, da “Boa Esperança”.

– Bem! deliberou Sabino. Você agora vai nos mostrar o caminho daqui pra “Boa Esperança”.

De novo, a mulher choramingou:

– Seu Sabino, lhe vem uma raiva em caminho e o Sr. acaba é matando este home numa volta da estrada! Seu Sabino, me atenda! Seu Sabino…

– Ora, larguemo de mamãezada! aborreceu-se o próprio Zé Favela, em favor de quem eram os rogos da dona da casa. O home só morre que a hora é chegada! Quem morre na véspera é porco ou piru. Vambora, seu Sabino!

– E saiu, resoluto, a guiar o grupo de cangaceiros. Quando avistaram a “Boa Esperança”, Zé Favela pediu:

– Seu Sabino, me dê um rife que o “serviço” no Joaquim Manduca quem faz sou eu. Se o Sr. me aceita, eu caio na vida da espingarda, debaixo de suas orde. Lhe prometo não lhe fazer vergonha, porque eu cá sou um cabra ditriminado e tanto me faz morrer hoje como na sumana que vem!

Sabino esteve a refletir e, logo com firmeza:

– Não! eu não posso me esquecer nunca de que foi você que matou meu irmão… Agora, puxe por ali! Depressa, se não quer que eu faça com você o que você fez com o Gregório…

Zé Favela rodou nos calcanhares.

Aos seus cabras, estupefatos ante aquele gesto de clemência, Sabino explicou, acendendo um cigarro:

– Eu não perdoei este peste, devido a diabo de rogativa de mulher, não! Perdoei porque ele teve a coragem de me dizer a verdade. Cabra macho de todos os seiscentos: tudo quanto era de faca fora das bainha, ele me disse, de cara e sem tremer o beiço, que matou meu irmão, enganado: – ia matar era a mim! Numa apertada hora daquelas, pra um home me dizer o que este cabra me disse, precisa não saber o que diabo é medo!

Fez uma pausa e, depois, soltando com força uma baforada de cigarro:

– Um cabra destes não se mata! Deixa isso viver pra tirar raça!




Fonte: Livro "No tempo de Lampião" de Leonardo Motta. 

HISTÓRIAS DO CANGAÇO

O TROFÉU


Por: Leonardo Motta

Zé Pinheiro, o celebérrimo facínora que tão sinistramente se afamou na sedição de Juazeiro contra o Presidente cearense Franco Rabelo, era um cangaceiro perversíssimo, ajutor de dezenas de homicídios bárbaros. O seu renome se fez no período que mediou entre o alumbramento da estrela de Antônio Silvino e o fulgor infernal da triste glória de Lampião.

Conheci-o pessoalmente em abril de 1914, quando a jagunçada do Padre Cícero passava pela cidade de Quixadá. Acabou martirizado nos sertões alagoanos por uns rapazes, cujo pai fora por ele assassinado. Essa vingança foi terrível: convenientemente amarrado, não lhe deram pancadas nem tiros – esfolaram-no vivo, suplício que o bandido suportou, rilhando os dentes e sem a humilhação de inútil pedido de misericórdia.

Quando Zé Pinheiro morava nos domínios do Padre Cícero, vivia também, a esse tempo, em Juazeiro, o Antônio Godê, outro cangaceiro famoso. O Godê era mais valente que o Zé Pinheiro; este tinha apenas mais perversidade.

Incomodado com a fama do rival, Zé Pinheiro brabateou, um dia, que ainda havia de mostrar ao Godê quem dos dois era o homem mais homem. A ameaça chegou aos ouvidos do Antônio Godê que, sem dizer palavra, saiu ao encontro daquele que assim jurara despachá-lo, antes de tempo, deste para o outro mundo. Encontrou-o a beber cachaça e contar proezas, num quarto de feira. Aproximou-se, bateu-lhe levemente no ombro e pediu em tom camaradesco:

– Zé Pinheiro, meu cabôco, deixa eu ver aí a fralda de tua camisa!

– Que negócio é este, Antônio Godê

– Nada. É uma brincadeira, é uma caçoada que eu quero te ensinar…

E, dando o exemplo, pôs para fora das calças a camisa. Zé Pinheiro fez o mesmo e o Godê, dando forte nó com ambas as peças de roupa, falou, noutro tom:

– Agora que nós estamos amarrados um no outro e nenhum de nós pode correr, bata mão à sua faca, cabra severgonho, que chegou a hora de se decidir quem de nós dois é home mais home!

E já empunhando a sua pajeuzeira, deu vários panos no peito e no rosto do bandido acovardado, que não teve coragem de sacar o punhal e se desmanchou em desculpas e protestos de amizade. Cansado de o provocar, Antônio Godê falou, com desprezo:

– Eu não te mato, mundiça, porque cabra frouxo como tu, um home como eu inzempla é assim como eu fiz agora. Mas, olha: tu larga meu nome de mão, deixa de paleio com minha vida, senão eu te arranco o coração pelas costas! Tu cuida que eu sou o negro Quintino, que se o Padre Ciço não chega tão depressa, tu tinha comido a língua do cadáver dele crua e com cachaça?



E pôr termo à estranha xifopagia, cortando com certeiro golpe de faca a união que ardilosamente conseguira para o duelo mortal. Mas, cortando como? Por derradeiro escárnio, cortando do lado da camisa do Zé Pinheiro e pondo para dentro das calças, como troféu, o nó cego que fizera. 

Fonte: Livro "No tempo de Lampião" de Leonardo Motta. 


Astúcia e inteligencia não faltavam ao Capitão.


Um exemplo disso é o que aponta o pesquisador e escritor Frederico Pernambucano de Melo em seu "Guerreiros do Sol", afirma Pernambucano que durante o cangaço muitos sertanejos ingressaram no bando cangaceiro de Lampião com o propósito de angariar bens materiais e depois abandonar a vida das armas para viver uma vida tranquila e sossegada.

Lampião astuto e esperto, ciente dessa possibilidade, fazia questão de gritar em alto e bom som o nome e demais particularidades dos Cabras novatos no bando durante os confrontos com as Volantes, fazendo com quê o elemento ficasse conhecido da polícia e tivesse descartada a sua volta ao convívio familiar e social. Isso quando não submetia os "candidatos" à cangaceiro a uma prova de fogo.

O elemento tendo sua identidade conhecida da polícia passava a ser imediatamente mais um procurado pela justiça. Ficava condenado à vida da canga.

Nas quebradas do sertão.

Geraldo Antônio de Souza Júnior


Virgolino Ferreira da Silva "Lampião" (1936)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

AS PESQUISAS E OS ESTUDOS QUE TENHO REALIZADO SOBRE O TEMA CANGAÇO AO LONGO DOS ANOS...


... tem me proporcionado reconhecimento e principalmente boas amizades com pessoas das mais variadas partes do país e até mesmo do exterior.

Hoje tive o prazer de conhecer pessoalmente o amigo Jornalista/Fotografo Élcio Braga (Foto) do Jornal O GLOBO do Rio de Janeiro e passar momentos agradabilíssimos ao lado de sua família aqui na cidade de São Paulo/SP. Na ocasião debatemos o tema cangaço abordando assuntos específicos do universo cangaceiro e em entrevista prestei alguns depoimentos falando do tema em questão. Entrevista essa que passará por edição e acredito que em pouco tempo estará disponível para visualização.

Para mim foi uma experiência única, agradável e inédita, que acredito que será um divisor de águas em minha vida por ser um trabalho produzido com precisão e qualidade feito por quem realmente entende do assunto.

Ao amigo Élcio Braga e família o meu sincero agradecimento.

Geraldo Antônio de Souza Júnior

Geraldo Antônio de Souza Júnior e o Jornalista/Fotografo Élcio Braga (O Globo).

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O OUTRO LADO DA MOEDA NA GUERRA CONTRA O CANGAÇO.


Lampião teria realizado suas estrepolias pelos sertões do Nordeste bem mais sossegado se não fosse perseguido e tivesse em seu calcanhar a Força Policial Volante de Nazaré (Pernambuco) que cujos membros ficaram conhecidos na história cangaceira como “Nazarenos”.

Os Nazarenos tiveram papel importante e fundamental no combate ao cangaceirismo/banditismo que assolava os sertões do Nordeste naquela época. Muitos de seus membros, inclusive, eram movidos por dívidas de sangue o que aumentava ainda mais a garra e determinação desses homens em meio à caatinga em busca do aniquilamento de seus inimigos.


A valentia e a coragem demasiada desses homens fizeram com quê muitos sofressem ferimentos gravíssimos durante as refregas e até mesmo ocasionado a morte de vários de seus componentes.

Na fotografia em anexo estão os irmãos Hercílio Nogueira (Direita) e Aureliano Nogueira (Esquerda) membros da Força de Nazaré. Hercílio Nogueira foi morto durante um combate ocorrido na Fazenda Maranduba contra o bando de Lampião no dia 08 de janeiro de 1932, ainda no princípio do embate ente os cangaceiros e a Força Policial.

Adendo :

Aureliano de Souza Nogueira, conhecido por Tenente Lero, foi delegado em Custódia/PE nos anos cinquenta e faleceu no posto fiscal de Sucupira, em Jaboatão dos Guararapes/PE, vítima de atropelamento quando saia do seu caminhão em direção ao posto fiscal, fato ocorrido em agosto de 1958.

A sua filha Solange Torres casou-se com José Carneiro de Souza Farias e um filho deste, Ubirajara Torres Nogueira, casou com a custodiense Maria do Socorro Medeiros. 

O tenente Lero era casado com Julieta Ferraz Torres, irmã do lendário Major Theofanes Torres Ferraz. (Jorge Remígio)

Geraldo Antônio de Souza Júnior

Aureliano de Souza Nogueira (Direita) e Hercílio de Souza 
Nogueira (Esquerda) membros da Força de Nazaré. 
Hercílio Nogueira foi morto durante um combate 
ocorrido na Fazenda Maranduba contra o bando 
de Lampião no dia 08 de janeiro de 1932

sábado, 7 de outubro de 2017

CERTIDÃO DE CASAMENTO DO CASAL CANGACEIRO MORENO E DURVINHA.


O casamento do casal Moreno e Durvinha, que no estado de Minas Gerais adotaram respectivamente os nomes de José Antônio Souto e Maria Jovina da Conceição, aconteceu no dia 16 de agosto de 1973, na cidade mineira de Augusto de Lima.

Certidão gentilmente cedida por Neli Maria da Conceição filha do casal Moreno e Durvinha.

Geraldo Antônio de Souza Júnior


Lampião e Maria Bonita...


... em imagem publicada no Jornal carioca "A Noite" no ano de 1938.


Lembrando que a grande maioria das fotografias que circulavam em jornais da época, à exemplo dessa, foram registradas por Benjamin Abrahão Calil Botto, antigo ajudante de ordens do padre Cícero do Juazeiro, entre os anos de 1936/1937.

Geraldo Antônio de Souza Júnior


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

REVISTA "O CRUZEIRO" DE 23 DE ABRIL DE 1932.

ANO IV. NÚMERO 25.



Matéria: Lampião - O terror dos sertões nordestinos (Página 37)


Para download em alta resolução.

Fonte: Biblioteca Nacional.

Geraldo Antônio de Souza Júnior