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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

MAIS UMA IMPORTANTE OBRA DA LITERATURA CANGACEIRA PARA A MINHA COLEÇÃO.

Tive hoje (30/08/2017) a satisfação de receber o tão esperado livro “Lampião e o Cangaço na Historiografia de Sergipe” Volume I, de autoria do amigo escritor e pesquisador do cangaço Dr. Archimedes Marques, que por sinal me concedeu a honra de realizar a elaboração/produção da capa de sua prestimosa obra.

O livro “Lampião e o Cangaço na Historiografia de Sergipe”, que será dividido em cinco volumes, apresenta a trajetória de Lampião e sua gente em terras sergipanas e vem acrescido de fatos e histórias inusitadas, sendo inclusive muitas delas, desconhecidas do grande público.  

Durante anos o autor vem coletando fotografias e informações sobre o assunto e tudo o que foi resgatado será inserido nesse e nos próximos volumes do livro, que serão lançados em breve.

Tendo como base os trabalhos anteriores do autor não me restam dúvidas que esse livro que chega ao nosso conhecimento será um divisor de águas em relação à tudo aquilo que já foi escrito sobre o assunto abordado até o presente momento.  

O primeiro volume do livro “Lampião e o Cangaço na Historiografia de Sergipe” é na verdade um pequeno “aperitivo” comparado ao que virá nos próximos volumes.  Aguardem!

Quero agradecer imensamente ao amigo Escritor e Pesquisador do cangaço Dr. Archimedes Marques e dizer que estou lisonjeado e muito orgulhoso por ter me enviado o livro devidamente autografado e por ter tido o meu nome inserido na dedicatória dessa obra que já nasce triunfante e que em pouquíssimo tempo terá o merecido reconhecimento por parte dos estudiosos do assunto.

Ao autor o meu eterno agradecimento.


Geraldo Antônio de Souza Júnior


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

ANTÔNIO AMAURY CORRÊA DE ARAÚJO

Oitenta e três anos de idade e quase sete décadas de sua vida dedicadas aos estudos e pesquisas sobre o cangaço.

Durante suas pesquisas entrevistou inúmeros remanescentes da época do cangaço (Cangaceiros / Volantes / Testemunhas oculares), segundo consta foram mais de sete mil entrevistas, e transportou para os escritos parte das informações adquiridas e aquilo que vivenciou e ouviu de pessoas que foram partes presentes na história do cangaço.

Seus trabalhos, assim como de tantos outros pesquisadores/escritores, servem atualmente como fonte de pesquisa indiscutível para quem deseja conhecer e navegar pelo fantástico universo da literatura cangaceira.

Hoje (28/08/2017) estive em visita à sua residência juntamente com os amigos Joel Reis, Valdenilton Sousa da Silva e Cassiano José e aproveitei para fazer o registro fotográfico (Anexo) do momento em que autografava e dedicava um de seus livros no interior de sua biblioteca particular.

Fica o registro.

Geraldo Antônio de Souza Júnior


Antônio Amaury Corrêa de Araújo

VISITA AO ESCRITOR E PESQUISADOR DO CANGAÇO... ANTÔNIO AMAURY CORRÊA DE ARAÚJO.

Hoje (28/08/2017) levei meu subgrupo para fazer uma visita ao veterano Escritor e Pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

Exigi dos Cabras apenas que tirassem a indumentária cangaceira para não fazer alarde e que não tocassem em nada da casa até segunda ordem. 

O grupo formado pelos Cabras; Joel Reis, Valdenilton Sousa da Silva e pelo Jagunço Cassiano José, este último aspirante à cangaceiro, manteve a ordem e a atenção voltada todo o tempo às respostas e comentários de nosso anfitrião, voltadas é claro, ao tema cangaço.

Brincadeiras à parte... quero aproveitar o espaço para agradecer ao Sr. Antônio Amaury Corrêa de Araújo e família por ter nos dado mais uma vez o privilégio de frequentar sua residência e como em todas as vezes anteriores, conhecer um pouco mais sobre o tema que tanto perseguimos e agradecer também aos amigos Joel Reis, Valdenilton Sousa da Silva e Cassiano José, pela satisfação de suas companhias e amizade. Uma turma boa de interessados/estudiosos que está despontando em busca do conhecimento aprofundado sobre a saga cangaceira.

Grato.

Na fotografia estão da esquerda para a direita: Adenilton Sousa da Silva, Cassiano José, Antônio Amaury Corrêa de Araújo e Joel Reis.

Geraldo Antônio de Souza Júnior


Adenilton Sousa da Silva, Cassiano José, Antônio Amaury Corrêa de Araújo e Joel Reis. 

domingo, 27 de agosto de 2017

FAZENDA PACHECO

Localizada no município de Barra do Mendes na Bahia, sendo nesse local que no dia 25 de maio de 1940 o casal cangaceiro Corisco e Dadá, que empreendiam fuga, foram cercados e atacados pela Força Policial Volante comandada pelo então Tenente Zé Rufino.

Não obedecendo a ordem para se entregarem, o casal Corisco e Dadá tenta se evadir do local e segundo a versão apresentada pela polícia o casal fazendo uso de armas curtas atirou contra os soldados e no revide Dadá teve a perna direita atingida por um tiro tendo que amputar o pé e posteriormente parte da perna, enquanto Corisco foi atingido mortalmente e veio a falecer horas depois.

A Fazenda Pacheco foi o cenário da morte do último “grande” cangaceiro em atividade.

Com a morte de Corisco oficialmente o cangaço chega ao fim.

Foto: Google Maps


Geraldo Antônio de Souza Júnior

Fazenda Pacheco (Vista aérea)

FAZENDA COLÔNIA

Localizada no município de Afogados da Ingazeira no estado de Pernambuco. Foi nessa fazenda que no dia 02 de novembro do ano de 1875 veio ao mundo Manoel Batista de Morais “Antônio Silvino” o “Rifle de Ouro”.

Foi um dos mais temidos e respeitados cangaceiros nordestinos antes da chegada de Lampião.


Fotografia: Valdenilton Souza da Silva

Fazenda Colônia - Afogados da Ingazeira/PE. 

sábado, 26 de agosto de 2017

CASAMENTO DE IVO RIBEIRO DE SOUZA FILHO DO CASAL CANGACEIRO SILA E ZÉ SERENO E TERCILIA T. DE SOUZA. 

Lá vem a noiva toda de branco...

Fotografia do casamento da minha amiga Tercilia Teco de Sousa e Ivo Ribeiro de Souza filho do casal cangaceiro Sila e Zé Sereno. Casamento ocorrido no dia 08 de agosto de 1968.

No primeiro plano da fotografia podemos ver o ex-cangaceiro Zé Sereno (Esquerda), a noiva Tecilia (Centro) e o senhor João "Padrinho" (Direita). 

O tempo passa e ficam as boas lembranças que nossos corações e pensamentos insistem em não esquecer.

Mais uma fotografia resgatada e que ficará de agora em diante ao alcance do conhecimento de todos (as) aqueles (as) que tem interesse pela história cangaceira e seus personagens.

Geraldo Antônio de Souza Júnior



Zé Sereno (Esquerda), a noiva Tecilia (Centro) e o senhor João "Padrinho" (Direita). 

BANDO DE ZÉ SERENO


Fotografia registrada no ano de 1937 no distrito de Amparo de São Francisco no estado de Sergipe que na época pertencia ao município de Propriá e posteriormente elevada a condição de cidade.

Infelizmente não se sabe a identidade do fotografo que registrou o grupo liderado por Zé Sereno nessa ocasião.

Essa fotografia pertence ao acervo pessoal de Dona Carmosina dos Santos.

Fotografia gentilmente enviada por Claudinei Pereira.

Na fotografia da esquerda para a direita estão os cangaceiros: Marinheiro II (Marinheirinho) irmão de Sila e cunhado de Zé Sereno cujo nome verdadeiro era Antônio Paulo de Souza, Zé Sereno (José Ribeiro Filho), desconhecido, Saracura (Benício Alves dos Santos) e outro cangaceiro de identidade desconhecida.

Geraldo Antônio de Souza Júnior

Grupo de cangaceiros liderados por Zé Sereno em fotografia registrada no então distrito de
amparo de São Francisco no estado de Sergipe no ano de 1937.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

TÚMULO DE SINHÔ PEREIRA (SEBASTIÃO PEREIRA E SILVA).

Antigo comandante de Lampião antes deste ter o seu próprio bando cangaceiro. Após a saída de Sinhô Pereira do cangaço em junho de 1922, Lampião assume o grupo deixado por ele começa a sua jornada no cangaço. 

Sinhô Pereira nasceu no dia 20/01/1896 em Vila Bela (Atual Serra Talhada/PE) e faleceu no dia 21/08/1979 em Lagoa Grande/MG, onde está sepultado (Foto). 

Geraldo Antônio de Souza Júnior 

Foto: Ferreira Anjos​

Túmulo de Sinhô Pereira em Lagoa Nova/MG. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ilda Ribeiro de Souza "Sila" antiga integrante do bando de Lampião


Natural de Poço Redondo/SE, onde nasceu em 26 de outubro de 1924. Era a sexta filha dos oitos de Paulo Gomes de Souza e Josefa Gomes de Souza, agricultores. Perdeu a mãe quando tinha apenas seis anos de idade e o pai quando tinha treze anos. Entrou para o cangaço, quando foi "levada" pelo então cangaceiro Zé Sereno (José Ribeiro Filho), de quem se tornou companheira, pouco tempo depois da morte de seu pai, em fins de 1937, juntamente com três irmãos, que a seguiram para lhe proteger (Marinheiro, Novo Tempo II e Mergulhão II).

Encontrava-se em Angico, no dia 28 de julho de 1938, quando mataram Lampião. Entregou-se à polícia, com o bando de seu companheiro.

Teve importante participação nos estudos posteriores ao cangaço, pois concebeu inúmeras entrevistas sobre o período que lá passou, além de publicar um livro narrando sua vida no cangaço.

Texto: Livro "Cangaceiros de Lampião de A a Z" de Bismarck Martins de Oliveira

Geraldo Antônio de Souza Júnior

Ilda Ribeiro de Souza "Sila"

EM JARAMATAIA DE GARARU

 Por: Nertan Macedo


Tanta certeza tinha o doutor capitão Eronides de Carvalho que, mais cedo ou mais tarde, haveria de encontrar Virgulino Lampião que tratou de se preparar para não ser tomado de surpresa.

Oficial médico do Exército, mais tarde governador eleito de Sergipe, convalescia o doutor na fazenda Jaramataia, em terras de Gararu, quando o Capitão apresentou-lhe, no raiar do dia, a exemplo do que costumava fazer em casa do coronel Antônio Caixeiro. Era o doutor Eronides, filho do velho casal de fazendeiros de Borda da Mata.

Corria agosto, madrugada fresca, nos campos de Jaramataia. As últimas sombras da noite abandonavam o espaço, quando o médico foi despertado por um portador.

- Doutor Eronides, o capitão Virgulino Lampião mandava avisar que vem fazer uma visita ao senhor.

- Pois diga a ele que venha. Estou às ordens.

Eronides de Carvalho

Quinze minutos depois o Capitão apareceu em pessoa. Chegou montado, um cavalo magro, de bons arreios, o bando a pé atrás dele. O doutor aguardava-o no alpendre. 

Lampião demonstrou a distância e veio caminhando, sozinho, enquanto o grupo se detinha, cerca de uma vintena de cangaceiros. 

Estendeu a mão para o médico, dizendo:

- Bom dia, doutor. Eu sou o Capitão Virgulino Ferreira da Silva Lampião. Venho fazer uma visita de boa paz ao senhor.

O doutor sorriu ao cumprimento, indagando:

- Então como devo chamá-lo: capitão ou coronel? Porque eu também sou capitão e deve haver aqui uma hierarquia - como oficial do Exército nosso ser comandado pelo senhor...

Lampião compreendeu a malícia e replicou:

- Pois desde já o senhor está promovido a coronel.

- Assim está bem, Capitão. Mande o pessoal tomar chegada para um cafezinho e soltar o cavalo no pasto. 
  
A um gesto do chefe os homens foram se aproximando da casa grande de Jaramataia. Um deles era Ezequiel, irmão de Virgulino. Outro, seu cunhado Virgínio, homem de boas maneiras, cortês, o nariz afilado, moreno, bonito.

Ezequiel Ferreira "Ponto Fino II" e Virgínio Fortunato "Moderno"
em fotografia registrada por Eronides de Carvalho (1929).

 Corisco, o de cabelos alourados, traços duros, modos insolentes.

Cristino Gomes da Silva Cleto "Corisco"

No alpendre sentaram-se pelo chão, respeitosos, à espera da comida. Um permaneceu no pátio, rifle embalado, de sentinela.

O hospedeiro falou:

- Capitão, mande recolher aquele homem, que ninguém virá aqui nos incomodar.

Virgulino atendeu, o homem sumiu do pátio, vindo juntar-se aos companheiros que conversavam baixo para não incomodar o doutor e o capitão.

Na cabeceira da mesa, posta para o café matinal, disse o doutor Eronides:

- Eu tinha tanta certeza de que, um dia, o senhor ia me aparecer, que até me lembrei de comprar um presente para a ocasião.

Virgulino mostrou-se surpreso. Parece mesmo não acreditar. 

O doutor chamou a empregada da casa, que tremia como vara verde. Ordenando-lhe:

- Vá buscar os presentes do capitão Virgulino.

Dentro em pouco a moça retornava, trazendo um embrulho. O doutor desatou-o. Continha uma garrafa térmica e um queijo holandês.

E continuou:

- Lembrei-me de comprar essa garrafa em que o senhor pode conduzir café quente, para beber a qualquer hora do dia e da noite. E este queijo estrangeiro, muito caro e bom, que trouxe de Aracaju...

O visitante sorriu, enfim, satisfeito, constatando a verdade do que lhe dissera o médico. Agradeceu, solícito.

A essa altura um dos cangaceiros gemia, a um canto do alpendre.

- Que tem esse homem? perguntou o anfitrião.

- Dor de dente - informou Lampião, lacônico. - Há dias que não pode dormir.

Voltou-se o médico, novamente, para a empregada da casa:

- Vá buscar uma aspirina e um copo d’água e dê a esse homem. 

A moça voltou ao interior da casa e, reaparecendo no alpendre, com um comprimido e um copo d’água, passou-os ao cangaceiro doente.

O médico pode então sentir a disciplina e a autoridade de Virgulino. Um lado do rosto inchado, o cabra ficou segurando o remédio e a água, sem coragem para ingeri-los. Seus olhos, desconfiados, inquiridores, procuravam ansiosos, os do Capitão. Quando com os dele se cruzaram, um leve aceno de cabeça fez sentir ao cangaceiro que podia tomar a "receita", o que logo foi feito.

Depois da comida o Capitão, a pedido do dono da casa, consentiu em deixar-se fotografar, só e acompanhado. Prometeu o doutor enviar-lhe as fotografias de presente, quando ficassem prontas.

- Coronel, fique certo que eu mando cobrar estas poses ao senhor - disse-lhe Lampião.

Fotografia registrada por Eronides de Carvalho na Fazenda Jaramataia em Gararu/SE.

E solicitou em "particular" ao médico. Este já esperava pelo pedido e se preparava convenientemente. Indicou o seu quarto de dormir, fechando-se, ambos, nesse cômodo. Por medida de precaução, o doutor pusera a sua parabellum embaixo do colchão, nos pés da cama, para qualquer eventualidade. Sentaram-se lado a lado, no leito, com a mão direita apoiada no colchão, em cima do revólver. 

- Foi aí que eu notei a transformação - contou, mais tarde, o doutor. - As feições do visitante cordial mudaram por completo. De um momento para o outro, aquela natureza estranha se transformou. Era, agora, outro homem, arrogante, grosseiro, autoritário, mais dono do que hóspede.

Falando quase num sussurro, como era de hábito. Lampião indagou:

- O senhor tem arma de fogo?

- Tenho e da boa, respondeu Eronides silabando a resposta. 

- É igual a esta? - insistiu, puxando a Parabellum.

A arma, todavia, não saiu do coldre. O Capitão fez uma segunda tentativa, mas inutilmente.

- Está enferrujada, ponderou o médico.

- Mas temos força - revidou Virgulino e, num gesto brusco e violento, arrancou a Parabellum do estojo de couro que a detinha.

Calmamente, o doutor pôs a mão sobre a do Capitão, que sustinha a arma, comprimindo o botão que liberou o pente de balas que saltou ao colo de Virgulino. Eronides apanhou-o, guardando-o no próprio bolso, enquanto a mão, de novo, procurava com naturalidade disfarçada os pés da cama, onde ocultava a sua pistola. 

Desarmara o cangaceiro, este então pediu-lhe:

- Doutor, se as nossas armas são iguais, o senhor deve ter munição em casa. Estou desmuniciado e preciso de bala. O senhor vai me dar um pouco da sua.

- De fato, replicou Eronides, tenho uma caixa de munição em casa e posso cedê-la ao senhor.

Levantou-se. Foi a um armário próximo e retirou de lá uma caixa. Abriu-a sobre a cama e retirou um punhado de balas, que passou a Virgulino. Tirou um segundo punhado e quando apanhou o terceiro, quase esvaziando o conteúdo, Lampião obstou-o:

Basta, doutor. O senhor está morando nestas brenhas e precisa tanto quanto eu. Vamos dividir igualmente a munição - e ele próprio repartiu a caixa, após o que retornou ao alpendre para bater em retirada.

Na hora da despedida, o doutor fez-lhe presente de um par de perneiras do Exército.

- Na qualidade de Capitão, o senhor não pode andar sem perneiras, comentou Eronides.

- Não esqueça as fotografias, lembrou Virgulino. - Qualquer dia desse eu mando buscá-las.

Tempos depois, estava o doutor Eronides na fazenda Cajueiro, descansando numa espreguiçadeira, quando um desconhecido dele se aproximou, transmitindo-lhe o seguinte recado:

- O Capitão Virgulino mandou buscar as poses da Jaramataia.

- Diga ao Capitão que eu não mando agora; Entrego depois, no lugar onde ele indicar.

- Pois pode mandar coronel para o Porto da Folha, entregar na venda que fica na entrada da rua.

Basta chegar ao balcão e dizer – China!

Mais tarde, o doutor chamou um dos seus vaqueiros, fazendo-o portador das fotografias.

Ensinou-lhe a senha indicada.

O vaqueiro foi a Porto da Folha, chegou à bodega, onde se achavam alguns fregueses, gritando:

- China!

O dono da mercadoria fez-lhe um sinal, levando-o, incontinenti, a um quarto no interior da casa. Ali recebeu das mãos do portador as fotografias tiradas em Jaramataia.

Um dia o bando de Lampião matou um vaqueiro do doutor Eronides, em Nossa Senhora da Glória. Num encontro com o Capitão, lamentou o acontecido de modo amargo:

- Seus homens mataram o meu vaqueiro, Capitão. Deram-me um prejuízo de quinze contos de réis, quantia que o homem levava, da venda de um gado nas Alagoas.

Lampião ouviu. A seguir justificou-se:

- Aquele vaqueiro não prestava, coronel, nem pra mim nem pro senhor. Falava demais!

Dava conta de todos os meus passos pela sua propriedade. Vivia batendo com os dentes na feira.

Quanto ao dinheiro, pode ter certeza de que não me apoderei dele. Deve estar com o defunto...

E mandou alguns dos seus homens abrir a cova do vaqueiro em cujo bolso interno, do paletó, foram encontrados, intactos, os quinze contos da venda do gado.

Pediu, mais de uma vez, montarias arreadas ao doutor Eronides e as devolveu depois, sem faltar uma corda, uma cela, um estribo.

Doutra feita, o médico aconselhou Virgulino a largar a vida erradia do cangaço.

- Não posso, coronel, é tarde demais. Em todo lugar querem me destruir.

Muitas vezes o Capitão voltou a pedir munição ao doutor. Não vinha recebê-la pessoalmente.

Determinava o lugar onde devia ser enterrada. À noite ia buscá-la, com a sua gente.

Aproximava-se do fim.

Vez por outra, nas suas andanças por Sergipe, acoitava-se nas locas de pedra à margem do São Francisco. Passava ali dias e dias, alquebrado, vinte anos de viver perseguido pelas tocas do sertão. Tinha quarenta anos de vida, mais da metade passada no cangaço.

Num dos seus derradeiros encontros com o doutor Eronides, que se achava doente, Lampião lhe disse:

- Vou mandar Maria Bonita tratar do senhor. Ela tem mãos de fada.

Morria, pouco depois, ao lado da amante, na Grota do Angico. 


Fonte: Capitão Virgulino Ferreira “Lampião”
Autor: Nertan Macêdo (Edições Revista “O Cruzeiro” - Rio de Janeiro (1970).

Texto extraído do Blog do Mendes e Mendes.

Geraldo Antônio de Souza Júnior



CABRAS DE LAMPIÃO

Mariano e Mourão.


Fotografia registrada no ano de 1929 na Fazenda Jaramataia, localizada no município de Gararu/SE, pertencente ao coronel Antônio Caixeiro pai de Eronides de Carvalho, médico do Exército brasileiro que se tornou tempos depois Interventor do estado de Sergipe.


Abaixo na imagem estão os cangaceiros Mariano (Mariano Laurindo Granja) e Mourão. 


Geraldo Antônio de Souza Júnior


Cangaceiros Mariano (Mariano Laurindo Granja) e Mourão. 

CABRAS DE LAMPIÃO


Fortaleza (Revoltoso) e Zé Baiano.

Fotografia registrada no ano de 1929 na Fazenda Jaramataia localizada no município de Gararu/SE, pertencente ao coronel Antônio Caixeiro pai de Heronildes de Carvalho, médico do Exército brasileiro que se tornou tempos depois Interventor do estado de Sergipe.

Abaixo na imagem estão os cangaceiros Fortaleza que também é apontado por algumas fontes como sendo "Revoltoso (Esquerda) e Zé Baiano "José Aleixo Ribeiro da Silva" (Direita).

Geraldo Antônio de Souza Júnior

Fortaleza que também é apontado por algumas fontes como sendo “Revoltoso” 
(Esquerda) e Zé Baiano “José Aleixo Ribeiro da Silva (Direita)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

CABRAS DE LAMPIÃO


EZEQUIEL FERREIRA “PONTO FINO II” E VIRGÍNIO FORTUNATO DA SILVA “MODERNO”.

Fotografia registrada no ano de 1929, na Fazenda Jaramataia localizada no município de Gararu/SE, pertencente ao coronel Antônio Caixeiro pai de Heronildes de Carvalho, Interventor do estado de Sergipe.

Na fotografia aparece Ezequiel Ferreira “Ponto Fino II” irmão caçula de Lampião e Virgínio Fortunato da Silva “Moderno” viúvo de Angélica Ferreira irmã de Lampião.

Geraldo Antônio de Souza Júnior

Ezequiel Ferreira "Ponto Fino II" e Virgínio Fortunato "Moderno" (1929).

terça-feira, 22 de agosto de 2017

LIVRO


LAMPIÃO - MEMÓRIAS DE UM SOLDADO DE VOLANTES - VOLUMES I E II.

Livros escritos por quem participou da caça e da repressão ao cangaceirismo/banditismo nos sertões do Nordeste.


João Gomes de Lira fez parte da mais temida, ferrenha e destemida Força Policial Volante de todos os tempos. Os "Nazarenos" como assim eram conhecidos os membros dessa Força Volante oriunda do então povoado de Nazaré (Pernambuco) foram incansáveis combatentes contra Lampião e seus Cabras.


Homens que dedicaram grande parte de suas vidas ao combate aos bandos cangaceiros e em especial ao de Virgulino Ferreira da Silva “Lampião”, considerado o inimigo número um dessa temível Força Volante.


João Gomes de Lira fez parte dos “Nazarenos” e durante o tempo em que esteve integrado à policia esteve presente em inúmeros embates contra cangaceiros e contra o próprio Lampião. Suas memórias foram armazenadas nesses dois livros de sua autoria e posso assegurar que a leitura dessas obras nos faz voltar no tempo e se sentir parte integrante da história.


Já li essas duas “crianças” três vezes e garanto que é um trabalho escrito com seriedade e respeito à verdadeira história cangaceira.


Leitura imperdível.


Geraldo Antônio de Souza Júnior



LAMPIÃO

Uma imagem fantástica que a primeira vista engana qualquer criterioso pesquisador é na verdade uma pintura feita à mão e que segundo o Professor Antônio Vilela (Garanhuns/PE) foi um presente que ele recebeu de um sobrinho do Coronel Audálio Tenório de Águas Belas/PE.

Essa pintura encontrava-se em um sobrado na cidade de Águas Belas/PE, de propriedade do coronel e teria sido desenhada no ano de 1940 por artista de identidade atualmente desconhecida.

Uma obra perfeita... rica em detalhes e que merece ser levada ao conhecimento de todos.

Acervo: Antônio Vilela (Garanhuns/PE)

Geraldo Antônio de Souza Júnior


FAZENDA COLÔNIA - AFOGADOS DA INGAZEIRA/PE
LOCAL DE NASCIMENTO DE ANTÔNIO SILVINO O "RIFLE DE OURO"... ANTECESSOR DE LAMPIÃO NO CANGAÇO. 


Antônio Silvino


Manoel Batista de Morais nasceu no dia 2 de novembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, uma pequena cidade situada às margens do rio Pajeú das Flores, sertão do Estado de Pernambuco. Era filho de Francisco Batista de Morais e de Balbina Pereira de Morais. Na juventude, ficou conhecido como Batistinha (ou Nezinho). Seus dois irmãos eram Zeferino e Francisco.

Batistinha possuía um tio chamado Silvino Aires Cavalcanti de Albuquerque que, após ter brigado com os partidários do General Dantas Barreto (governador de Pernambuco), decidira organizar um bando e, desde então, vivia espalhando o terror pelos sertões adentro.

Desse grupo, faziam parte: Luís Mansidão e o seu irmão, Isidoro, Chico Lima, João Duda, Antônio Piúta e, posteriormente, os seus sobrinhos Zeferino e Manoel Batista de Morais (Batistinha).

Silvino Aires vivia fugindo do cerco da polícia, mas foi preso enquanto dormia, pelo Capitão Abílio Novais, perto de Samambaia, distrito de Custódia, em Pernambuco. Com a prisão do tio e bandoleiro, Batistinha assumiu o comando do cangaço, mudou o seu primeiro nome para Antônio (não se sabe, até hoje, o motivo) e, o segundo, para Silvino, em homenagem ao familiar e ex-chefe que tanto admirava.

A partir daí, passou a ser conhecido com o nome de guerra de Antônio Silvino e apelido de "Rifle de Ouro". Um pouco antes de Lampião, ele representou o mais famoso chefe de cangaço, substituindo cangaceiros célebres tais como Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia-Noite, Preto, Moita Brava, o tio - Silvino Aires - e o próprio pai - Francisco Batista de Morais (conhecido como Batistão).

Batistinha havia entrado no cangaço com o seu irmão, Zeferino, para vingar a morte do pai, Batistão do Pajeú, que havia tombado morto em um dos combates com a polícia. Batistão era um homem provocador, um bandoleiro, bastante marcado pela polícia e autor de vários homicídios. Certa vez, ousou entrar em Afogados da Ingazeira, em um dia movimentado de feira. Daí, o chefe político local, coronel Luís Antônio Chaves Campos, contratou um matador profissional (Desidério Ramos, que, como o coronel, também era desafeto de Batistão), e este liquida o cangaceiro com um tiro de bacamarte. O corpo de Batistão permaneceu inerte, em uma rua próxima à feira. Era o ano de 1896.

Desidério, gozando da cobertura do coronel e chefe político da região, permaneceu impune e bem protegido no sertão. Jamais demonstrou possuir o menor temor de Antônio Silvino, a despeito de o cangaceiro amedrontar a todos. Sendo assim, depois de muito chorar a perda do genitor, os filhos de Batistão juraram vingar a sua morte, roubando, assaltando e matando todos aqueles que colaboraram para tal.

Algumas pessoas acreditavam, inclusive, que Antônio Silvino não possuía "maus instintos", que não cometia violências à toa, do tipo assaltar pessoas, estabelecimentos, povoados e cidades sem haver um motivo justo. Os integrantes do seu bando só se vingavam daqueles que lhes armavam emboscadas, dos que os denunciavam à polícia, das volantes que os perseguiam. Quando muito, se não agiam exatamente dentro da lei, isto era justificado, segundo eles, pela necessidade de angariar elementos básicos para a sobrevivência do bando: comida, dinheiro, roupa, armamentos.

Outras pessoas afirmavam, contudo, que Antônio Silvino vivia espalhando o terror nos municípios das Zonas da Mata e Agreste de Pernambuco, e nos sertões deste Estado e da Paraíba. Sobre os feitos e a valentia daquele cangaceiro, o cantador popular Leandro Gomes de Barros escreveu:

Onde eu estou não se rouba
Nem se fala em vida alheia,
Porque na minha justiça
Não vai ninguém pra cadeia:
Paga logo o que tem feito
Com o sangue da própria veia.

Quando Silvino Aires morreu, vários indivíduos perigosos entraram em seu bando e começaram a espalhar o terror por toda a parte. Foram eles: Cavalo do Cão, Relâmpago, Nevoeiro, Bacurau, Cobra Verde, Azulão, Cocada, Gato Brabo, Rio Preto, Pilão Deitado, Barra Nova, Cossaco, entre outros. Antônio Silvino, como chefe, passou a usar a farda de coronel, apresentando-se com cartucheiras, punhal na cintura, bornais e um rifle na mão e, por questão de poder e vaidade, exigia que todos o chamassem de "capitão".

A esse respeito, Mauro Mota registrou um episódio vivenciado por Antônio Silvino. Ao invadir uma cidade na Paraíba, o famoso cangaceiro se dirigiu à casa de um delator e disse, em público, que ia matá-lo. A esposa da vítima, desesperada, pediu-lhe, então: "Capitão, não mate o meu marido. Tenha pena de uma pobre mulher e de crianças que vão ficar órfãs."

Ao que o cangaceiro lhe respondeu: "[...] Antônio Silvino não sabe negar nada a uma mulher aflita." [...] "Perdôo-lhe a vida, mas, para não ficar sem castigo, vou mandar dar-lhe uma pisa."

Ao que a mulher voltou a lhe solicitar: "Capitão, se é para humilhar meu marido, o senhor me desculpe: em um homem não se dá! Mande logo matá-lo, que é melhor!

Naquele momento, vendo esvair-se a oportunidade de escapar da morte, o marido delator interrompeu o diálogo dos dois e exclamou: "Não se meta, mulher, que o capitão sabe o que faz!"

Um outro episódio ocorrido foi narrado pelo escritor e sertanejo Ulisses Lins. Certa vez, Antônio Silvino passou pela Fazenda Pantaleão, uma propriedade de Albuquerque Né, o avô de Etelvino Lins. Como o cangaceiro não o conhecia, apenas cumprimentou-lhe à distância, tirando o seu chapéu.

Quando foi informado de quem se tratava, no entanto, Antônio Silvino voltou para pedir-lhe desculpas, humildemente, por ter passado em suas terras armado, justificando isto pela vida de riscos que levava, fugindo sempre dos inimigos e da polícia. Dessa forma, mesmo considerando o crime como uma banalidade, o cangaceiro sabia respeitar a autoridade e a lei dos coronéis-fazendeiros, em verdade, os mais poderosos de todos.

Ele chegou a ser chamado de "bandido cavalheiro". Mesmo não perdoando aos inimigos, ele adquiriu fama por proteger as pessoas simples e humildes: as mulheres, as crianças, os doentes e os idosos. Um poeta popular sertanejo, na época, sobre ele escreveu:

Antônio Silvino é
Cangaceiro do sertão,
Mas não ataca a pobreza,
Antes lhe dá proteção;
Mas tem orgulho em matar
Oficial de galão.

Um outro poeta popular deixou o seguinte cordel, como se fosse o próprio Antônio Silvino falando:

Já ensinei aos meus cabras
A comer de mês em mês,
Beber água por semestre,
Dormir no ano uma vez,
Atirar em um soldado
E derrubar dezesseis.

O governador de Pernambuco, general Dantas Barreto, frente aos imensos prejuízos causados pelos cangaceiros no interior do Estado, decidiu decretar a mobilização da polícia. Foram despachadas para o sertão, então, inúmeras forças volantes, com o intuito de combater o bando de Antônio Silvino.

O delegado do município de Taquaritinga, alferes Teófanes Torres, comandante de uma das forças volantes, desconfiou que o famoso cangaceiro estivesse escondido na fazenda de Joaquim Pedro. E quando empreendeu uma busca dentro da casa, percebeu que um grande carneiro tinha sido abatido e estava sendo preparado na cozinha do fazendeiro.

A partir daí, o alferes ameaçou fuzilar o dono da propriedade, caso ele não revelasse, de imediato, onde se encontrava Antônio Silvino. Uma das filhas de Joaquim Pedro, apavorada com a situação, implorou: "diga a verdade, papai!" O fazendeiro terminou falando, então, que o bando se encontrava bem perto dali, à beira de um riacho; e o delegado ordenou que a tropa seguisse até o local e pegasse o cangaceiro vivo ou morto.

O caminho indicado, no meio da caatinga, em Lagoa da Lage, Santa Maria, Pernambuco, era um entranhado de espinhos, mororós, xique-xiques, facheiros e galhos secos de jurema, ferindo todos os que tentavam abrir a picada. Mas, a despeito das dificuldades, no dia 28 de novembro de 1914 ocorreu o último encontro de Antônio Silvino com a polícia. No tiroteio, muitos morreram e poucos conseguiram fugir. Já baleado e para não ir preso, Joaquim Moura, o lugar-tenente do cangaceiro, se suicidou com um tiro de rifle. O confronto durou cerca de um hora, o tempo que o bando esgotou a munição das cartucheiras.

Percebeu-se, de repente, que Antônio Silvino estava correndo cambaleante, como se estivesse ferido. Em verdade, uma bala de fuzil havia atravessado o seu pulmão direito, indo sair na região sub-axilar. Sangrando, ele conseguiu chegar à residência de um amigo, pediu que chamassem a polícia e, na presença desta assim falou: estou entregue! Tinha 39 anos de idade.

Ele foi preso na mesma hora e levado para a Cadeia de Taquaritinga. Porém, como estava muito ferido, teve de viajar a cavalo, dentro de uma rede, por cerca de 40 quilômetros, até a estação ferroviária de Caruaru. O destino final era a capital do Estado.

Como recompensa ao heroísmo pela captura do "Mussolini sertanejo", o general Dantas Barreto promoveu o alferes Teófanes a tenente; a alferes, o segundo-sargento José Alvim; e, a cabo, todos os demais praças que participaram do confronto com o bando.

Do município de Caruaru, Antônio Silvino foi transferido para a Casa de Detenção do Recife. Veio em um trem especial da Great Western, onde uma multidão o aguardava: todos queriam ver, de perto, o tão falado cangaceiro.

No entanto, Antônio Silvino se encontrava abatido, em decorrência da hemorragia que tivera, estava inquieto, com dificuldade respiratória, e ardia em febre. Os médicos diagnosticaram pneumonia traumática e aplicaram seis ventosas secas sobre o seu hemitorax direito. Posteriormente, deram-lhe injeções de óleo canforado e estriquinina. O doente ficou mais calmo, respirando melhor.

Antônio Silvino se tornou o prisioneiro número 1122, da cela 35, do Raio Leste. Por vários processos, pelos vinte anos de opção pela vida no cangaço, foi condenado a 239 anos e 8 meses de prisão.

Na cadeia, teve um comportamento exemplar e decidiu aprender a ler e escrever, aproveitando as horas do dia para fazer algo útil. Nos intervalos das aulas, fabricava abotoaduras, brincos e pequenos artefatos de crina de cavalo, ganhando algum dinheiro com a venda desses produtos.

Passou a ser objeto de estudos e pesquisas, principalmente de alunos da Faculdade de Direito do Recife. Entretanto, não gostava de recordar o seu passado.

Em certa ocasião, recebeu a visita de José Lins do Rego, um jovem advogado cujo desejo era o de se tornar um romancista. Outras vezes, foi procurado por Luís da Câmara CascudoNilo PereiraJosé Américo de Almeida, entre várias personalidades importantes. Quanto aos jornalistas, o ex-cangaceiro se recusou, sistematicamente, a recebê-los.

Antônio Silvino passou vinte e três anos, 2 meses e 18 dias recluso. Mas, após esse período, recebeu um indulto do Presidente Getúlio Vargas. Na época, ele declarou:

Minha vida todo mundo conhece. Vinte e três anos de reclusão alteraram o meu destino. Mas, diga lá fora, que eu nunca roubei, nem desonrei ninguém, e, se matei alguma pessoa, foi em defesa própria, evitando cair nas mãos de inimigos.

Saiu feliz da vida da prisão, como um passarinho que escapou da gaiola. Tinha 62 anos de idade.

Liberto, ele decidiu andar pela rua Nova, olhar as vitrines, ir até à Sorveteria Pilar, conhecer a praia de Boa Viagem, admirar Recife e Olinda. Chegou, inclusive, a conhecer o Rio de Janeiro e o Presidente Vargas.

Desejando se estabelecer no interior do Estado, Antônio Silvino resolveu mandar uma carta para José Américo de Almeida, um político de renome na Paraíba, solicitando-lhe um emprego, por conta dos "seus serviços prestados ao Nordeste". Mas, o escritor e político jamais lhe respondeu a carta.

O ex-detento viaja para o sertão da Paraíba. Ficou vagando de cidade em cidade, se hospedando nas casas de alguns amigos antigos, porém jamais obteve recursos financeiros para comprar a tão sonhada pequena propriedade e dedicar-se de corpo e alma à agricultura.

Terminou indo viver com uma prima, Teodulina Alves Cavalcanti, que morava com o seu esposo em uma casa modesta na rua Arrojado Lisboa, em Campina Grande, na Paraíba.

Considerando-se que Antônio Silvino permaneceu vinte anos arriscando a vida e enfrentando o perigo no cotidiano, é possível afirmar que o ex-cangaceiro teve uma vida longa. Lampião, por exemplo, foi morto em Sergipe no ano de 1938, aos 41 anos de idade. Na ocasião de sua morte, Antônio Silvino estava cumprindo a sua pena e, quando indagado acerca do ocorrido, ele declarou:

Não me causou admiração porque a vida é incerta, mas a morte é certa. Não me interessam mais esses assuntos de cangaço, pois sou um homem regenerado. Só   quero, agora, descanso na minha velhice.

Do perigoso cangaceiro que fora no passado, ele era hoje um homem idoso, mas que possuía uma mente esclarecida e respondia bem à todas as perguntas que lhe faziam. Dele, foi esse depoimento:

Nunca tive medo de morrer em pé, quando campeava pelo Nordeste, mas, agora, deitado, não quero morrer, se bem que não tenha medo do inferno, pois se para lá for, disputarei um lugar de chefe, um posto de comando qualquer. Pro céu é que eu não quero ir, pois, ao que me consta, lá não há campo pra luta, nem lugar para Capitão de mato como sempre fui. Quero viver mais um pouco, mesmo com esta agonia que estou sentindo, com esta falta de ar, com esta falta de conforto.

E acrescentou:

A justiça dos homens me condenou. A justiça da Revolução de 30 me absolveu, dando-me liberdade. A doença agora me prende e eu tenho que aguardar o pronunciamento da justiça de Deus. É ela maior de que todas as justiças da terra.

Antônio Silvino teve oito filhos: José, Manoel, José Batista, José Morais, Severino, Severina, Isaura e Damiana. Ele morreu na casa de sua prima Teodulina, no dia 30 de julho de 1944. Ao lado de uma multidão de curiosos, procurando vê-lo pela última vez, o ex-cangaceiro foi enterrado no Cemitério de Campina Grande. Uma senhora idosa depositou uma coroa de flores sobre a sua sepultura e, uma jovem, um cacho de angélicas e cravos.

Passados dois anos e meio do seu falecimento, nenhum familiar apareceu para a retirada dos ossos de Antônio Silvino. Sem alternativa, os coveiros enterram os restos mortais em um outro lugar do cemitério. Hoje, não se sabe mais aonde.

O que sobrou do Capitão Antônio Silvino, do célebre Rifle de Ouro, se perdeu, em meio a tantas outras ossadas que nunca foram reclamadas. A sua fama, no entanto, registrada pelos poetas populares em literatura de cordel e, por muitos intelectuais, em vários livros e periódicos, permanece viva e intacta em todo o Brasil.

Recife, 14 de novembro de 2003.


FONTES CONSULTADAS:
BARBOSA, Severino. Antônio Silvino o rifle de ouro: vida, combates, prisão e morte do mais famoso cangaceiro do sertão. Recife: CEPE, 1997.

FERNANDES, Raul. Antônio Silvino no RN. Natal: CLIMA, 1990.

MELO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurich: Stahli, 1993.

MOURA, Severino Rodrigues de. Antônio Silvino. Revista de História Municipal, Recife, n. 7, p.139-142, ago. 1997.

PORTO, Costa. Os tempos da República Velha. Recife: Fundarpe, 1986. (Coleção pernambucana 2ª fase, v. 26). Edição conjunta de Os tempos de Barbosa Lima, Os tempos de Rosa e Silva, Os tempos de Dantas Barreto  e Os tempos de Estácio Coimbra.


COMO CITAR ESTE TEXTO:

Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Antônio Silvino. Fundação Joaquim Nabuco, Recife/PE.

A filmagem abaixo que foi realizada por Valdenilton Souza da Silva, mostra a Fazenda Colônia local de nascimento de Antônio Silvino. 

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