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domingo, 7 de julho de 2019

UMA PIÇARRA DA "FAZENDA PIÇARRA" DE ANTÔNIO DA PIÇARRA.

Uma pequena, mas importante lembrança, que recebi de presente do amigo Jose Francisco Gomes De Lima Francisco. Uma pequena pedra oriunda da Fazenda Piçarra, localizada no município de Porteiras no estado do Ceará, que no passado pertenceu ao senhor Antônio da Piçarra, notório coiteiro de Lampião em terras cearences.

Foi nos limites dessa fazenda que no dia 27 de março de 1928 que o bando de Lampião foi atacado pela Força Volante comandada por Arlindo Rocha com o apoio do Nazareno Manoel Neto e do Tenente Eurico Rocha (Cearense). Durante o ataque o cangaceiro Sabino das Abóboras foi atingido, tendo que ser removido do local com a ajuda de outros cangaceiros.

Devido a gravidade do ferimento e na iminência da morte, Sabino pede para que Lampião o execute, para facilitar a fuga do bando e poupando-o assim das fortes dores que sentia.

"Se você é meu amigo, acabe com meu sofrimento..." (Sabino)

Lampião a princípio recusa o pedido do amigo moribundo, mas devido ao sofrimento e a insistência de Sabino, acaba por ceder a sua vontade.

Os cangaceiros presentes se recusam a eliminar o companheiro de armas, até que finalmente o cangaceiro Mergulhão I (Antônio Juvenal da Silva), se prontifica para a missão.

Sabino das Abóboras pede alguns minutos para rezar e fazer a recomendação de sua alma e em seguida com o rosto coberto com um lenço, recebe o tiro de misericórdia, tiro que calou para sempre um dos homens mais valentes e perigosos a trilhar nas veredas cangaceiras em todos os tempos.

Por ter sido responsabilizado pela morte de Sabino das Abóboras e por ter levado, ainda que involuntariamente, a polícia até o local onde os cangaceiros estavam acoitados na ocasião, Antônio da Piçarra passou a ser um dos alvos da vingança de Lampião e durante algum tempo o cangaceiro Moreno (Antônio Ignácio da Silva), escalado por Lampião para a missão, "arrodeou" a Fazenda Piçarra na tentativa de eliminá-lo, mas por razões desconhecidas não chegou a concretizar a vingança.

Nas quebradas do sertão.

Geraldo Antônio De Souza Júnior



domingo, 15 de outubro de 2017

HISTÓRIAS DO CANGAÇO

Para tirar a raça.


Por: Leonardo Motta.

Sempre que o coração cruel de Lampião se abrandava num gesto compassivo, Sabino Gomes, seu lugar-tenente, resmungava, contrariado. Quando foi, por exemplo, da ocupação da cidade cearense Limoeiro, Lampião rendeu-se às súplicas do Vigário local para não saquear as casas de comércio. Sabino, visivelmente irritado, mandava o Padre rezar e cuidar da sua igreja, não se metendo em coisas que não são da conta de quem veste batina.

Sabino foi morto pelo próprio Lampião, que sempre o temeu, se arreceou do seu crescente prestígio no bando e se tornou cobiçado dos cinquenta e tantos pacotes que Sabino trazia sob a cartucheira.

– Antes que ele me queira jantar, eu o almoço! decidiu Lampião, suspeitoso de que Sabino, mais hoje, mais amanhã, o abatesse com um tiro, para se apoderar da centena de contos de réis que também ele, Virgolino, acarinhava de encontro à cinta.

Uma das preocupações de Sabino na vida de crimes a que se entregou era vingar a morte dum seu irmão, o Gregório, rapaz pacato e benquisto, eliminado numa emboscada pelo Zé Favela. Nunca se pôde saber a causa desse assassínio.

Um dia, casualmente chegando a uma fazenda, Sabino e seus cabras encontraram o Zé Favela desarmado. Reconhecê-lo e arrastá-lo para o terreiro, a fim de ser sangrado, foram coisas simultâneas. Antes, porém, que a vingança se consumasse, a dona da casa, com um crucifixo à mão, implorou do sicário, aos gritos:

– Seu Sabino, lhe peço por esta image: não mate o home! É o premêro pedido que lhe faço e se alembre que o Sr. nunca chegou nesta casa que não tivesse comidoria e arrancho e a gente não lhe botasse no piso da poliça! Me faça isso, seu Sabino, não mate o home!

Sabino quedou um instante e falou pro Zé Favela:

– Cabra, tu vai me dizer uma coisa: por que foi que tu matou meu irmão?

Zé Favela, sobranceiro como um nobre condenado, que altivamente aguardasse a morte, redarguiu, sem pestanejar:

– Seu Sabino, eu matei seu irmão, enganado.

– Enganado como, cabra mentiroso?

– Cabra mentiroso, não seu Sabino! Eu matei seu irmão enganado! Matei ele, enganado, porque eu ia matar era o senhor!

A confusão era verdadeira, mas brutal! Os companheiros de Sabino sentiram que o Favela não seria poupado. Mas o interrogatório prosseguia:

– Me matar por quê, cabra, se eu nunca te fiz mal?

– Eu ia matar o Sr., pra ganhar 50$000 do Joaquim Manduca, da “Boa Esperança”.

– Bem! deliberou Sabino. Você agora vai nos mostrar o caminho daqui pra “Boa Esperança”.

De novo, a mulher choramingou:

– Seu Sabino, lhe vem uma raiva em caminho e o Sr. acaba é matando este home numa volta da estrada! Seu Sabino, me atenda! Seu Sabino…

– Ora, larguemo de mamãezada! aborreceu-se o próprio Zé Favela, em favor de quem eram os rogos da dona da casa. O home só morre que a hora é chegada! Quem morre na véspera é porco ou piru. Vambora, seu Sabino!

– E saiu, resoluto, a guiar o grupo de cangaceiros. Quando avistaram a “Boa Esperança”, Zé Favela pediu:

– Seu Sabino, me dê um rife que o “serviço” no Joaquim Manduca quem faz sou eu. Se o Sr. me aceita, eu caio na vida da espingarda, debaixo de suas orde. Lhe prometo não lhe fazer vergonha, porque eu cá sou um cabra ditriminado e tanto me faz morrer hoje como na sumana que vem!

Sabino esteve a refletir e, logo com firmeza:

– Não! eu não posso me esquecer nunca de que foi você que matou meu irmão… Agora, puxe por ali! Depressa, se não quer que eu faça com você o que você fez com o Gregório…

Zé Favela rodou nos calcanhares.

Aos seus cabras, estupefatos ante aquele gesto de clemência, Sabino explicou, acendendo um cigarro:

– Eu não perdoei este peste, devido a diabo de rogativa de mulher, não! Perdoei porque ele teve a coragem de me dizer a verdade. Cabra macho de todos os seiscentos: tudo quanto era de faca fora das bainha, ele me disse, de cara e sem tremer o beiço, que matou meu irmão, enganado: – ia matar era a mim! Numa apertada hora daquelas, pra um home me dizer o que este cabra me disse, precisa não saber o que diabo é medo!

Fez uma pausa e, depois, soltando com força uma baforada de cigarro:

– Um cabra destes não se mata! Deixa isso viver pra tirar raça!




Fonte: Livro "No tempo de Lampião" de Leonardo Motta.