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segunda-feira, 16 de julho de 2018

CRUZES DO CANGAÇO.


DEMARCANDO OS LOCAIS HISTÓRICOS.

A louvável iniciativa dos pesquisadores João de Sousa Lima e Sandro Lee de demarcar pontos relacionados com a história cangaceira é digna da admiração e do reconhecimento de todos os simpatizantes e estudiosos do fenômeno cangaço, afinal a preservação e a demarcação desses locais facilitarão a localização e manterão a história evidenciada e ao acesso e olhares de todos, fazendo com quê esses locais e suas histórias não se percam com o passar dos anos. Papel que deveria ser realizado pela Secretaria de Cultura local.

Recentemente os dois pesquisadores estiveram na região do povoado Baixa do Boi nos limites de Paulo Afonso na Bahia e fixaram cruzes e placas nos locais das mortes de Ezequiel Ferreira da Silva “Ponto Fino II” irmão de Lampião, morto durante o combate na Lagoa do Mel e do paisano Zé Pretinho que foi covardemente executado pela Volante baiana do Tenente Arsênio Alves de Souza, sob a acusação de traição, pouco tempo após a Força Volante comandada pelo Tenente ter sido pega de surpresa pelo bando de Lampião e ter sofrido uma baixa de dezenove soldados, tendo sido mortos dezesseis no local do confronto e outros três posteriormente quando em fuga. Totalizando dezenove soldados mortos pelos cangaceiros. Fato que ocorreu no dia 24 de maio de 1931 na Lagoa do Mel.

Pesquisadores Sandro Lee (Esquerda) e João de Sousa Lima no momento em que fixaram a
cruz no local onde estão enterrados os restos mortais de Zé Pretinho. Morto e esquartejado
pela Volante baiana do Tenente Arsênio Alves dos Santos.


Cova rasa onde Zé Pretinho foi sepultado a mando de dona Generosa. 

 Durante o ataque surpresa contra a Volante baiana os cangaceiros foram surpreendidos por rajadas de tiros de metralhadoras disparadas pelo Tenente Arsênio o que provocou um recuo da frente inimiga, dando tempo para a fuga dos soldados sobreviventes, que fugiram do local em debandada. Cessado o tiroteio os cangaceiros se depararam com o corpo inerte de Ezequiel Ferreira “Ponto Fino II”, atingido mortalmente pelos disparos da “costureira”, apelido pelo qual Lampião se referia à metralhadora. Lampião perdia nesse momento o seu irmão caçula e o último de seus irmãos que optaram pela vida incerta e sangrenta do cangaço. A cada baixa sofrida aumentava ainda mais o ódio e o desejo de vingança por parte de Lampião contra as policias e seus mancomunados. Após esse episódio o chefe cangaceiro e seus Cabras, cegos de ódio, seguem em marcha pelos sertões com o sentimento de ódio e de vingança, disseminando o terror indiscriminadamente.

Cruz fixada nas proximidades da Lagoa do Mel
(Povoado Baixa do Boi - Paulo Afonso/BA). Local onde
ocorreu o combate entre o bando de Lampião e a Volante
 baiana comandada pelo Tenente Arsênio Alves de Souza. 

Pesquisadores Sandro Lee e João de Sousa Lima ladeando a cruz fixada
nas mediações onde aconteceu o confronto entre o bando cangaceiro e
a Volante baiana. 

Detalhe da Cruz e da Placa em deferência ao local da morte
de Ezequiel Ferreira da Silva "Ponto Fino II".
Irmão de Lampião. 


Missão cumprida. 

 Refeitos do ataque-surpresa os Soldados Volantes, tendo a frente o Tenente Arsênio Alves, se reúnem e retornam ao local do ocorrido em busca de respostas que explicassem o inesperado e fatídico ataque cangaceiro e chegam ao nome de um morador local chamado Zé Pretinho o qual sem chances de defesa foi apreendido e amarrado pelos soldados que o conduziram para as proximidades da casa de dona Generosa, reconhecida coiteira de Lampião, onde serviu como alvo para a mira dos ensandecidos soldados e posteriormente teve seu corpo esquartejado. Após a retirada dos soldados dona Generosa mandou enterrar os restos mortais de Zé Pretinho, dando um enterro digno ao inocente. A atitude dos soldados contra o inocente Zé Pretinho demonstra o modo operacional e o despreparo de grande parte das policias atuantes naquela época. Era fera combatendo fera. Cobra engolindo Cobra. Um tempo de aflição em que as populações sertanejas permaneciam em meio ao fogo cruzado provocado por quem deveria manter a ordem e a segurança e por quem costumeiramente espalhava a insegurança e o terror pelos sertões do Nordeste.

Zé Pretinho foi apenas uma entre as incontáveis vítimas da polícia atuante na época, um inocente que foi julgado, condenado sem provas e executado pelos soldados, sem chance alguma de defesa ao contrário de Ezequiel Ferreira da Silva “Ponto Fino II” irmão de Lampião, que por livre e espontânea vontade optou pela vida da canga. Ambos vítimas do cangaço. Ambos perdedores.  Ambos história que deverá perdurar através dos tempos para que não se perca com o passar dos anos, possibilitando o conhecimento futuro.

Graças a ações como essas realizadas pelos pesquisadores João de Souza Lima e Sandro Lee, além de tantos outros que atuam de forma semelhante é que a cada dia aumenta mais ainda a nossa esperança de que a verdadeira e genuína história cangaceira permanecerá viva por muito tempo, proporcionando estudos, debates e discussões acaloradas ou não em torno do assunto. Aos poucos vai surgindo aos nossos olhares a Rota do Cangaço da região de Paulo Afonso na Bahia, região que cedeu vários de seus filhos para as hostes de Lampião e de grande concentração de histórias e atuações tendo como pano de fundo o cangaço lampiônico e terra natal de Maria Bonita, companheira do “Capitão-Cangaceiro” Virgolino Ferreira da Silva o vulgo, temível e afamado Lampião.

As fotografias anexadas a essa matéria são dos locais onde os fatos se sucederam e dos momentos seguintes à afixação das cruzes e das placas por parte dos “Cabras” João de Souza Lima e Sandro Lee.

Que a história permaneça viva e intocável. Assim espero.

Fotografias: Sandro Lee / João de Sousa Lima

Geraldo Antônio de Souza Júnior

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